O professor José Tiago Menezes Correia enxerga mais do que reações químicas e novas possibilidades para as moléculas quando entra no laboratório. O baiano de Salvador vê caminhos para uma ciência mais diversa. Como docente do Instituto de Química da Universidade de São Paulo (USP), Correia acredita que a diversidade racial não apenas transforma a universidade, mas pode expandir o próprio horizonte científico do País.
“Quando a participação na geração de conhecimento acadêmico é esmagadoramente limitada a uma parcela da população, deixando de fora os representantes de 55% dela, muito se perde”, diz o professor de Química Orgânica. Ele é um dos docentes que entraram pelo sistema de cotas para o ingresso de professores, que existe na USP desde 2023.

“Independentemente da cor da pele e das origens, os professores têm formação e experiências singulares. Portanto, eles enxergarão a ciência de formas distintas que, combinadas, enriquecem bastante o ambiente acadêmico”, completa.
A convivência com professores de diferentes grupos étnicos ajuda a combater estereótipos. A diversidade no corpo docente desafia a ideia de que certos espaços, como as universidades e os cargos de gestão, são “lugares de não-negros”, promovendo um letramento racial mais amplo em toda a comunidade acadêmica.
A representatividade não é apenas um tema identitário, mas uma questão estrutural para o avanço da ciência, em sua visão. O professor ocupa um espaço que historicamente quase nunca coube a corpos negros. No Instituto de Química da USP, são apenas quatro docentes negros, de um total de 103.
Mas como mudar essa realidade? Para Correia, as cotas estudantis são o motor mais poderoso para transformar o futuro da docência. “Quanto mais estudantes pretos chegam aqui, mais sementes teremos para florescer. No futuro, serão eles que vão virar professores.” As cotas em concursos para docentes também são importantes, diz, mas vê como prioridade o acesso desde a formação inicial.
O docente de 39 anos já percebe sinais da mudança trazidos pela consolidação das cotas para estudantes. Ao entrar numa turma de Química, no período noturno, o professor relata sua surpresa. “Olhei ao redor e vi vários estudantes pretos. Achei massa. Isso eu não via quando fiz doutorado na Unicamp há dez anos.”
Do total de 58.752 estudantes da USP, 29% são pretos, pardos e indígenas (PPI).
No laboratório, ele leciona para estudantes de Química e de Ciências Farmacêuticas. “Discuto com os alunos como as moléculas reagem, como modificamos partes específicas de uma estrutura orgânica”, explica.
No caso dos futuros farmacêuticos, “é um curso fundamental para quem almeja trabalhar com o desenvolvimento de novos medicamentos”, diz.
Líder do grupo de pesquisa PHOTOSYN – Grupo de Fotocatálise e Síntese Orgânica, Correia desenvolve métodos para modificar seletivamente moléculas conhecidas ou sintetizar moléculas inéditas, produzindo novas reações. A fonte de energia para essas transformações é a luz em um processo chamado fotocatálise, uma das áreas mais inovadoras na síntese orgânica.
Recentemente, o grupo do professor Correia passou a ser financiado pela Fapesp, por meio do auxílio à pesquisa Jovem Pesquisador. Esse auxílio vai oferecer condições para equipar o seu laboratório e executar de forma independente as suas pesquisas.
A trajetória acadêmica que o levou à Alemanha, à Espanha, à Dinamarca e de volta ao Brasil nasce longe dos grandes centros universitários: no bairro da Engomadeira, periferia de Salvador. Filho do técnico em mecânica José Sérgio Correia e da vendedora Valdisia Correia, o químico viu de perto o esforço dos pais para garantir educação à irmã e a ele. “Os pais não querem que os filhos sofram o mesmo que eles. Eles fizeram tudo o que podiam.”
No ensino médio técnico do Cefet-BA (atualmente IFBA), encontrou na Química um propósito de vida. Depois vieram a graduação na UFBA, o mestrado e doutorado na Unicamp, com estudos do doutorado também financiados pela Fapesp, e uma passagem memorável: o estágio de doutorado no Instituto Max Planck, na Alemanha, sob supervisão de Benjamin List, que anos depois receberia o Prêmio Nobel de Química.
“Eu estudei com um Nobel”, conta, ainda com evidente orgulho. Ali nasceram pesquisas que renderiam publicações de grande relevância e uma visão ampliada de mundo.
Depois de quase dois anos na Dinamarca em um pós-doutorado, além de acompanhar a mulher Banner — também química — o professor Correia soube de um concurso para lecionar no Instituto de Química na USP. Voltou correndo. “Lá vivíamos muito bem. Mas eu não via uma progressão de carreira rápida para estrangeiros. Eu já estava pronto para liderar meu próprio grupo de pesquisa.”
Além disso, ele e a mulher, ambos naturais de regiões quentes — Salvador e Manaus, respectivamente — nunca se adaptaram ao frio intenso do norte europeu. “Vivo do sol. Fico sem paciência até com dias nublados”, brincou apontando a janela na tarde de segunda-feira.