Há dez anos, a medicina obteve uma vitória diante de um problema de saúde pública silencioso, mas devastador: a hepatite C. Pela primeira vez, os pacientes começaram a ter à disposição remédios capazes de eliminar o vírus do fígado e levar à remissão do problema que resultava em cirroses, tumores e transplantes. A palavra “cura”, tão ponderada entre os especialistas, passou a circular, e hoje o tratamento mudou a vida de quem carregava a doença. Agora, outra hepatite, tão complexa e perniciosa quanto, está na mira da ciência. Um medicamento inédito reaquece a chama da cura diante de uma moléstia que afeta mais de 250 milhões de pessoas globalmente, roubando duas vidas a cada minuto, muitas delas devido ao câncer de fígado. Estamos prestes a viver uma nova era contra a hepatite B.

A mudança de paradigma é representada por uma injeção de ação semestral chamada bepirovirsen. Desenvolvida pela biofarmacêutica GSK, ela foi alvo de estudos com 1 800 participantes. Ao final, não só demonstrou eficácia na contenção do vírus como levou ao que os experts chamam de cura funcional em cerca de 20% dos pacientes. Os resultados, apresentados recentemente no Congresso da Associação Europeia para o Estudo do Fígado, em Barcelona, na Espanha, foram saudados pela comunidade médica como “espetaculares”, dignos de um “marco histórico”. Com isso, a medicação está a um passo de ser aprovada pelas agências regulatórias.
Tamanha celebração tem a ver com o desafio que é subjugar o patógeno da hepatite B. Diferentemente de seu primo, o tipo C, o vírus se incorpora ao DNA das células humanas, dificultando a ação do sistema imune e das terapias atuais. O novo antiviral tem um mecanismo de ação triplo, que lhe permite se conectar ao material genético do microrganismo, impedindo que ele faça cópias de si e produza uma proteína crítica para a infecção. A tal cura funcional significa, na prática, que o indivíduo não terá de conviver mais com essa proteína, que funciona como um sinalizador de que o paciente ainda transmite o vírus e corre o risco de ter um câncer hepático.
Assim, a injeção não elimina por completo o microrganismo, mas consegue frustrar sua principal via de atuação e de estragos no corpo humano. “Estávamos por anos estacionados em dois medicamentos que não conseguiam zerar essa proteína. Com o novo tratamento, é possível atingir o maior nível de resposta dos pacientes até agora”, diz o hepatologista Raymundo Paraná, professor da Universidade Federal da Bahia, que acompanhou a apresentação em Barcelona. Um feito que coroa anos e anos de trabalhos em laboratórios e hospitais. “Nas últimas décadas, mais de cinquenta moléculas foram testadas com esse objetivo e nenhuma chegou à fase final”, afirma Melanie Paff, vice-presidente e líder de desenvolvimento de drogas para a hepatite B da GSK.
Hoje, existem fármacos para os casos crônicos da doença — estima-se que ao menos 1 milhão só no Brasil —, mas eles não anulam as complicações e a transmissão do vírus. Com o bepirovirsen, o cenário muda. Entre os pacientes que receberam a medicação semestral, junto da terapia padrão, a taxa de cura funcional foi de 19%, chegando a 26% entre indivíduos que já tinham cargas menores da proteína produzida pelo agente infeccioso. Isso significa que essas pessoas não só deixam de passar o patógeno adiante — o contágio ocorre por relações sexuais ou sangue contaminado — como estão mais blindadas contra a destruição hepática.

O êxito do medicamento não representa, contudo, a derrota da hepatite B. Pois um dos maiores gargalos no enfrentamento da condição é a falta de diagnóstico. Estima-se que menos de um terço dos brasileiros que convivem com o vírus teve a doença identificada. “Nosso grande problema hoje não é ter remédio, mas oferecer tratamento a quem precisa”, diz Paraná. E essa realidade pode mudar com relativa facilidade — basta maior conscientização.
O teste rápido para hepatite B, oferecido em postos de saúde a partir de uma gota de sangue, deveria fazer parte do check-up anual. Outra medida valiosa, e amplamente disponível no Brasil, é a vacinação. Indicada desde a infância e fornecida gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS), ela é o principal meio de prevenir a infecção hoje.
Pouco mais de sessenta anos atrás, um médico americano desvendou um vírus que destruía o fígado e recebeu um Prêmio Nobel pela descoberta. Era o causador da hepatite B. Agora, finalmente, depois de a ciência desenvolver exames e imunizantes, o cerco ao patógeno começa a se fechar efetivamente com o primeiro antiviral capaz de evocar a tão sonhada palavra “cura”.
Publicado em VEJA de 5 de junho de 2026, edição nº 2998
