A alegria e o orgulho que a estudante Heloisa Teles Rodrigues sentia pela vaga em Terapia Ocupacional na USP no ano passado conviviam com a preocupação e a angústia para chegar até a Cidade Universitária, na zona oeste. Eram três horas e meia no trajeto a partir do Jardim Capela, no extremo da zona sul. A mobilidade melhorou com uma vaga de moradia no Conjunto Residencial da USP (Crusp), mas surgiram outros desafios, como a distância da faculdade para os restaurantes.
Embora as dificuldades sejam parte inseparável da vida universitária – quase todo mundo tem um perrengue para se lembrar dos tempos de calouro -, vale muito a pena olhar além da excelência acadêmica na hora de escolher a universidade.

Questões práticas e cotidianas, muitas vezes deixadas em segundo plano, como facilidade de acesso ao campus, tempo de deslocamento, além das despesas com moradia e alimentação, podem influenciar diretamente no sucesso e adaptação do estudante.
A partir de sua experiência como caloura, Heloisa dá um conselho para os vestibulandos. “Pesquise bastante sua faculdade”.
Em outras palavras, esta também é a recomendação de Renata Condi, coordenadora de Educação Internacional do Colégio Rio Branco. “A escolha da faculdade deve ser um processo de pesquisa aprofundada, considerando a paixão, a realidade do mercado, a metodologia de ensino, a cultura da instituição, a logística de transporte e moradia, e a infraestrutura de apoio”.
Quanto tempo você gasta no trânsito?
Um dos principais desafios é o tempo que todo mundo gasta para se deslocar de um ponto a outro de São Paulo.
Para 78% da população paulistana, os deslocamentos pela cidade são os fatores que mais contribuem para a falta de tempo no cotidiano. O índice supera – de longe – a demora no transporte público (49%), filas em serviços (44%) e cuidados domésticos (31%) como outras razões para a sensação de falta de tempo. Os dados fazem parte de um levantamento exclusivo feito pelo Instituto Locomotiva, com apoio da Uber.
Essa foi uma das adaptações mais difíceis para Yasmyn Pereira, aluna de Relações Públicas da USP. Moradora do município de Taboão da Serra, na Grande São Paulo, a estudante de 23 anos gastava cinco horas no transporte público por dia, entre as idas para o campus no Butantã e o trabalho, agora na Avenida Brigadeiro Faria Lima, na zona oeste. Eram R$ 30 por dia.
“É muito tempo de vida dentro de transporte. São quase cinco horas por dia. É cansativo. Nem todo mundo tem as mesmas 24 horas no dia”, diz.

As dificuldades de locomoção se tornam mais urgentes porque se somam a outras carências dos estudantes. Morador de Heliópolis, Thiago Neres, de 26 anos, precisa acordar às 5h para chegar às 7h30 na Escola Politécnica. Ele pega um ônibus até o Terminal Sacomã, dois metrôs e mais um ônibus até a Cidade Universitária.
“Acabei me tornando uma pessoa mais diurna. Mas, quando o semestre vai chegando próximo do final, vai ficando mais difícil devido à exaustão acumulada”, conta o aluno de Engenharia de Produção.
Para facilitar essa adaptação, Condi recomenda que o aluno faça o trajeto até a faculdade durante a preparação para o vestibular. “Ele precisa ir até a faculdade e entender o tempo que leva para deslocar.”
Cadê minha rede de apoio?
Em outras situações, o jovem tem de se adaptar a outra cidade ou estado. Essa é uma prática comum quando o aluno utiliza as notas do Enem para participar do Sistema de Seleção Unificada (Sisu) e disputar vagas em instituições públicas de ensino superior do País.
Aqui, é importante identificar as políticas de permanência estudantil, na opinião de Vanessa Passarelli, coordenadora de Futuro e Carreiras do Colégio Bandeirantes. As ações podem incluir: auxílios financeiros, apoio acadêmico, serviços e acompanhamentos voltados para saúde e bem-estar e, também, possíveis programas de inclusão.
“Buscar compreender a rede de apoio durante esse período de adaptação revela-se como essencial. A depender da distância, avaliar os custos, não apenas com moradia, alimentação e transporte, mas em possíveis viagens para a cidade de origem, por exemplo”, diz.
Maria Clara Hernandes dos Santos teve de deixar a cidade de Vinhedo, no interior de São Paulo, para viver no Butantã, zona oeste, para ficar mais perto do curso de Relações Internacionais na USP.
“Passei a morar com uma amiga, longe da família, reorganizando meu cotidiano. Desenvolvi maior independência e controle sobre minhas próprias ações, sobre minha conta bancária e sobre minha vida no geral”, diz a estudante de 19 anos.
Aqui entra o problema da moradia. Especialmente para universidades públicas, os custos de moradia podem ser um fator decisivo. O preço de venda de imóveis residenciais em São Paulo apresentou elevação de 6,56% em 2024, o maior número desde 2014, quando o acumulado anual foi de 7,33%, de acordo com o Índice FipeZap.
A disponibilidade de moradias estudantis é limitada. Na capital, um dos poucos exemplos é o Conjunto Residencial da USP (Crusp) que oferece 1.600 vagas para estudantes de graduação e de pós-graduação em condição de vulnerabilidade socioeconômica.
Na Unesp, as moradias estudantis são destinadas ao mesmo público – no total, são 1.240 vagas em 13 cidades paulistas.
Quando existentes, as moradias podem não oferecer a infraestrutura e serviços básicos (mercados, farmácias) encontrados em campi de universidades no exterior. “A moradia estudantil é uma das questões-chave para permanência dos estudantes na universidade”, diz Anderson Nakano, professor do Instituto das Cidades da Unifesp e pesquisador do Observatório das Metrópoles.
Altos índices de desistência
A falta de conhecimento sobre esses fatores pode levar à desistência. “Muitos alunos confundem a insatisfação com a metodologia de ensino ou a cultura institucional com uma falta de gosto pelo curso em si”, afirma Renata Condi.
No Brasil, 25% dos alunos abandonam o bacharelado ainda no 1º ano de acordo com a edição de 2025 do Education at a Glance, estudo que reúne estatísticas educacionais do Brasil e de mais de 40 países produzido anualmente pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Na média da entidade, o índice é de 13%, também considerado alto no relatório.
“Altas taxas de evasão no primeiro ano podem indicar um descompasso entre as expectativas dos alunos e o conteúdo ou exigências do curso, possivelmente refletindo falta de orientação profissional ou de apoio aos calouros”, diz a análise do relatório.
Importância de apoio da universidade
São mudanças tão importantes e profundas na vida dos estudantes que exigem maior participação das próprias universidades na opinião de Claudia Costin, especialista em Políticas Educacionais e ex-diretora Global de Educação do Banco Mundial. Ela destaca a importância de suporte, principalmente psicológico, para os jovens.
“No exterior, as universidades oferecem bolsas para os outros gastos dos estudantes e que vão além do pagamento da mensalidade em si”, exemplifica. “Talvez essa prática possa nos inspirar”.
A USP informa que concedeu 4.561 novos auxílios a estudantes em situação de vulnerabilidade socioeconômica só em 2025, com valores que vão de R$ 320 a R$ 850. Os contemplados com o auxílio-permanência têm direito a refeições gratuitas nos restaurantes universitários.
Mariana Freitas Nery, diretora executiva da Diretoria Executiva de Apoio e Permanência Estudantil da Unicamp, afirma que a universidade oferece unidades habitacionais com vagas individuais e estúdios para famílias, com internet, lavanderia e água gratuitos, além de energia subsidiada.
A diretora cita ainda o auxílio financeiro e projetos de expansão da moradia e parcerias com empresas do setor de alojamento estudantil para garantir mais vagas.
A Unesp informa que reservou em 2025 R$ 90,7 milhões à Permanência Estudantil, o que viabiliza auxílios socioeconômicos, moradia estudantil, auxílio transporte, auxílio-maternagem/paternagem, subsídio alimentação, entre outros, e R$ 27 milhões ao programa Sans, que ajuda na oferta de alimentação a preços acessíveis nos campus.
Onde buscar informações sobre as universidades
- Sites oficiais das universidades: informações sobre cursos, processos seletivos e infraestrutura.
- Redes sociais de alunos e atléticas: rotina, eventos e destaques da vida acadêmica.
- Plataformas de Avaliação: sites que comparam instituições e fornecem detalhes como número de alunos por professor, laboratórios e serviços de saúde.
- Feiras de profissões e Eventos “Portas Abertas” (Open Day/Virtual Tour): visita às instalações das universidades (presencial ou virtualmente).
- Profissionais e Mentores: Orientadores vocacionais ou de estudos podem auxiliar na pesquisa, na criação de planos (ex: plano A no exterior, plano B no Brasil) e na elaboração de planilhas de custos (mensalidades, moradia, custo de vida).