Como não pode brigar diretamente com Donald Trump, o presidente Lula da Silva resolveu concentrar suas críticas no secretário de Estado, Marco Rubio. Já o chamou, de maneira a tentar diminuir sua importância, de “um tal de Marco Rubio” e ontem o qualificou de “anti-América Latina”. Acha, pecado dos pecados, que “não gosta do Brasil”. É uma tática para criar um inimigo público, mas a realidade é que o chefe da diplomacia representa não um adversário pontual, mas uma mudança sistêmica na política externa dos Estados Unidos, que sempre foi de tolerar eventuais atritos com o Brasil em nome de manter boas relações com um país sem nenhum problema grave no trato bilateral.
Essa era acabou, pelo menos por quanto durar o governo Trump. A sucessão de bombas dos últimos dias prova isso, incluindo a designação de quadrilhas criminosas como organizações terroristas (não obstante um pedido direto de Lula a Trump para que não fizesse isso); a nomeação de um embaixador, Daniel Perez, que não vem para fazer rapapés e assinar acordos de cooperação, e, acima de tudo, a proposta de tarifação de 25% dos produtos brasileiros importados pelos Estados Unidos.
Em depoimento à Comissão de Política Externa do Senado, Rubio verbalizou uma análise sem precedentes: colocou o Brasil de Lula da Silva na mesma lista de países hostis aos Estados Unidos, como Nicarágua e Cuba. Sem nenhum dos atenuantes habituais da linguagem diplomática, foi uma pancada daquelas.
Rubio obviamente não faz coisas assim por iniciativa própria. É tudo combinado com o chefe. A mudança no tratamento em relação ao Brasil faz parte da guinada que o governo Trump deu em relação à América Latina para contrabalançar a influência chinesa que prosperou durante anos, sob a quase indiferença dos americanos. Trump já obrigou o Panamá a tirar a China do controle do canal estratégico, autorizou a captura sem precedentes de Nicolás Maduro para ser julgado em Nova York e agora está bloqueando a entrada de combustíveis em Cuba, o que deixa o regime comunista na pior situação de seus quase 70 anos de história.
AMBIÇÕES PRESIDENCIAIS
É possível que Marco Rubio tenha um envolvimento maior por causa de seu perfil, como filho de cubanos que emigraram para os Estados Unidos e cultivaram um horror visceral ao regime castrista.
São questões importantes para a América Latina, mas que praticamente ocupam um espaço zero no interesse dos americanos – exceto por piques pontuais, como a cinematográfica captura de Maduro. O assunto dominante é, obviamente, o conflito com o Irã, do qual Rubio é notavelmente distante, com as negociações chefiadas pelos emissários especiais Steve Witcoff e Jared Kushner.
Mas todos os assuntos pertinentes à política externa se refletirão sobre Rubio e suas ambições presidenciais. Ele tem impressionado Trump com discursos articulados e veementes de defesa não só das políticas pontuais mas de todo o projeto americano. Ele também é especialmente bom em elogiar o chefe. Rubio não fala como um latino ou um hispânico, mas como um aspirante a ser presidente sem nenhuma designação agregada.
Se o governo Trump conseguir recuperar popularidade; se o vice JD Vance, o principal pré-candidato republicano, for um adversário derrotável; se as várias apostas da política externa derem certo ou pelo menos não derem muito errado, o “tal de Marco Rubio” pode ser o próximo presidente dos Estados Unidos.
Isso se não for derrotado antes por cartazes arrasadores proclamando que “o Pix é do Brasil”. E uma certa confusão sobre quem foi enforcado e quem teve um fim natural na Inconfidência Mineira. A raiva provoca atitudes patéticas a serem evitadas se a ideia é uma contra-argumentação racional com os americanos para não permitir a instauração das deletérias tarifas. Se o circo for para tirar vantagem eleitoral, Rubio que se prepare para mais cascudos, embora não pareça particularmente preocupado.