A estudante Maria Clara Cunha, de 18 anos, não pôde acreditar ao ver sua nota 1000 na redação do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). “Eu fiquei absolutamente surpresa. Quando olhei parecia que a nota ia sumir dali, que eu precisava tirar vários prints senão ela ia desaparecer”, conta ela.
A sensação foi completamente oposta daquela experimentada em novembro de 2025, ao sair da prova. “Eu lembro que quando eu estava fazendo a redação, eu fui passar ela a limpo e já mudei tudo que estava no rascunho. Lembro que reescrevi um parágrafo inteiro direto na folha e achei que eu ia péssima, ia ferrar minha redação inteira”, recorda ela, que saiu da sala de aula chorando.
Ela que é carioca, crescida e criada no Rio de Janeiro, se formou no ensino médio em 2024, e fez um ano de curso preparatório para vestibular, no Colégio e Curso pH, para alcançar seu sonho. “Eu fazia redação uma vez por semana, no máximo duas, e estudava das 7h até umas 19h, 20h.” Em 2024, Maria Clara tirou 920 na redação.

Para o Enem, sua estratégia foi fazer as primeiras questões de linguagens e em seguida já pensar na redação. “Anotei as minhas ideias – acho que facilitou muito ter a folha de rascunhos perto da folha do tema – e já quis escrever para focar nisso e depois só pensar nas questões restantes”, diz.
Ao todo, Maria Clara gastou cerca de 2h30 da redação, deixando quatro horas restante para o resto da prova. “Como eu tenho TDAH eu tenho um tempo extra [de uma hora].” De acordo com ela, no momento que ela mais estava ‘no pique’ de fazer a prova, aproveitou para escrever.
Além da boa notícia do Enem, Maria Clara passou em direito na Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), um sonho que tem desde o ensino médio.
Segredos para uma redação 1000 no Enem
De acordo com a estudante, o autoconhecimento é de extrema importância. “Quando eu descobri meu próprio método de estudos, disparei.”
O diagnóstico de déficit de atenção veio no início do ano, época que a estudante dividia sua rotina entre análises psicológicas e estudo. “Passei o meu ensino médio com dificuldade de prestar atenção. Entrava por um ouvido e saia pelo outro. Então tem coisa que eu só aprendi no curso mesmo, quando eu estava medicada. Parecia tudo novo, sendo que era revisão”, diz.
Outra ajuda importante foi o ambiente do curso preparatório, que contava com baias privadas e professores que faziam tutorias individuais e ajudavam a organizar a rotina.
“O que me ajudou muito foi ter um espaço que eu pudesse me concentrar. Normalmente deixava para última hora e estudava de madrugada porque a casa estava mais tranquila”, conta. “Mas no curso, com uma sala de estudo, não tem nada para te distrair muito.”
Maria Clara lembra também da importância do descanso. “Tinha época que eu estudava por seis horas seguidas, tinha crise de ansiedade e eu ficava exausta mas quando eu me permitia sair 10 minutinhos para conversar com as minhas amigas ou descer para um café eu voltava muito mais motivada e focada”, recomenda. Na hora do estudo, ela escutava ruído branco, um som que promete relaxamento.
Então, resumindo as dicas da Maria Clara são:
- Entenda suas preferências, facilidades de estudos e maneiras de estudar;
- Cerque-se de pessoas que te apoiam;
- Lembre-se de descansar;
- Viva para fora dos livros. Conhecimento geral é muito importante.
Paixões antigas
Maria Clara conta que nunca gostou muito das aulas de redação e português, mas sempre amou leitura. “Meu quarto é cheio de livro. Sempre li muito, bastante fantasia, inclusive. Não lia nada culto, não.”
Para estudar para os vestibulares e para o Enem, ela se encantou com autores novos. “É sempre bom você ler coisas diferentes. Eu gostei bastante do livro do africano Pepetela [“O quase fim do mundo”, leitura obrigatória de 2025 para a UERJ]. Também nunca tinha lido [José] Saramago, foi algo completamente novo, abriu meus olhos para interpretação, melhorou meu o senso crítico, me mostrou outros tipos de narrativas”, exemplifica.
A escrita de redação nunca foi frequente em sua vida. Mas adorava escrever coisas íntimas que não mostrava para ninguém e, durante o quinto ano do ensino fundamental, acreditava que seria cineasta. “Então praticava escrita criando roteiro.”

Tema da redação
O tema da redação do Enem 2025 foi “Perspectivas acerca do envelhecimento na sociedade brasileira”. As previsões mais recentes do IBGE indicam que, até 2030, o Brasil contará com mais habitantes com 60 anos do que com jovens com 14 ou menos. Até 2060, os idosos devem chegar a 30% da população do País.
De acordo com a estudante, pelo fato de o tema estar mais ligado à atualidade e ter uma ampla capacidade interpretativa, cabia muito assunto. “Eu comecei meu texto falando de Dom Pedro II, de como eram os retratos que faziam dele mais velho, a valorização da imagem do mais velho e fui até a atualidade, quando eu falei do filme A Substância (filme de 2024 de Coralie Fargeat). Então acho que é um tema bem atemporal e bem aberto”, diz.
Ao mesmo tempo, o lado abstrato da interpretação do tema gerou insegurança. “Acho que abriu caminho para as pessoas interpretarem o tema da forma que elas quiserem e isso que deixa todo mundo inseguro, porque você não sabe se está fazendo de uma forma correta.”
Historicamente, os temas da prova de redação do Enem discutem problemas sociais. Em 2024, o tema foi “Desafios para a valorização da herança africana no Brasil”. Já em 2023, o tema foi “Desafios para o enfrentamento da invisibilidade do trabalho de cuidado realizado pela mulher no Brasil”.
A redação do Enem é avaliada conforme as seguintes competências: compreensão da proposta de redação, demonstração de conhecimento da língua necessária para argumentação do texto, domínio da norma padrão da Língua Portuguesa, elaboração de proposta de solução para o problema abordado, respeitando valores e considerando as diversidades socioculturais e seleção e organização das informações.
Cada um dos critérios concede um máximo de 200 pontos. Somando todos, chega-se ao total da nota da redação.
A redação é a única prova em que o candidato pode tirar nota máxima, de mil pontos. Isso ocorre porque o texto dissertativo-argumentativo escrito pelos candidatos não é corrigido pela TRI, e sim por professores de português.