O Dia do Trabalhador neste 1º de Maio terá atos em São Paulo organizados por grupos da direita que, desta vez, buscam se contrapor às tradicionais mobilizações da esquerda e das centrais sindicais. Com eventos marcados em diferentes pontos da cidade, parlamentares e pré-candidatos de ambos os espectros devem participar das manifestações já de olho nas eleições de outubro, com pautas que vão da crítica à atuação do Supremo Tribunal Federal (STF) à defesa do fim da jornada 6×1.
A Avenida Paulista, tradicional palco de manifestações, será ocupada neste ano apenas por grupos da direita, como Patriotas do QG, A Voz da Nação e Marcha da Liberdade. Sob o lema “Flávio presidente, Bolsonaro livre e Supremo é o povo”, o grupo convocou um ato às 11h, em frente à Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp).

Entre as principais bandeiras estão o apoio ao senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ), a anistia ao ex-presidente Jair Bolsonaro e críticas à atuação dos ministros do STF. São esperados deputados estaduais e outras lideranças políticas ligadas ao grupo.
No ano passado, o local foi ocupado por grupos da esquerda e centrais sindicais. Neste ano, essas organizações, como a Intersindical, a Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB) e o movimento Vida Além do Trabalho (VAT), estarão concentradas a partir das 9h na Praça Roosevelt.
Entre as principais pautas estão a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), a regulamentação do trabalho por aplicativos e a ampliação de direitos para a categoria, além do combate ao feminicídio e da defesa da redução da taxa de juros.
Estão previstas as presenças da ex-ministra do Meio Ambiente Marina Silva (Rede), da deputada Erika Hilton (PSOL-SP) e do deputado Orlando Silva (PCdoB-SP).
A definição dos locais dos atos também gerou disputa entre os grupos. Neste ano, os pedidos das centrais sindicais pelo espaço foram recusados. De acordo com a Polícia Militar de São Paulo, o grupo Patriotas do QG foi o primeiro a solicitar autorização para realizar o ato e, por isso, teve o pedido aceito, seguindo o critério cronológico.
Com a liberação do espaço, outros grupos da direita decidiram unificar as manifestações em torno do Patriotas do QG.
Para Matheus Lima, da direção nacional da Intersindical, a decisão indica possível motivação política. Em nota, a Polícia Militar de São Paulo, por sua vez, informou que atua de forma “técnica, imparcial e isonômica” no planejamento de eventos em vias públicas, seguindo critérios previamente estabelecidos. A corporação acrescentou que foi realizada uma reunião para analisar os pedidos apresentados, considerando fatores como a antecedência das solicitações.
Já o professor do Insper Leandro Cosentino avalia que a disputa pela Avenida Paulista revela uma tentativa da direita de ocupar um espaço historicamente associado à esquerda.
“Antigamente, quando a gente pensava em 1º de maio, o monopólio da rua era da esquerda. Nos últimos tempos, esse cenário começou a mudar, e o fato de apenas a direita estar na Paulista neste ano é sintomático de uma disputa que vem se consolidando. A rua não é mais um território exclusivo da esquerda”, afirma.
Apesar da polarização, há bandeiras comuns aos dois lados, como a escala 6×1, cuja Proposta de Emenda à Constituição (PEC) foi aprovada na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara na última semana.
O deputado estadual Guilherme Cortez (PSOL-SP), que participará do ato, afirma que a principal pauta neste momento é o fim desse modelo de jornada, que considera excessivo. Segundo ele, “não é razoável que tantas pessoas só tenham um dia por semana para descansar”, e critica a demora em avançar na mudança.
Já o deputado estadual Alex Madureira (PL-SP) avalia que o tema também deve aparecer entre as pautas das manifestações organizadas pela direita.
Segundo Cosentino, a disputa por pautas trabalhistas deve ganhar centralidade em ano eleitoral, já que nenhum campo político tende a confrontar diretamente direitos dos trabalhadores nesse contexto.
Ele avalia que a esquerda perdeu espaço nesse debate ao não acompanhar as transformações no mercado de trabalho, especialmente com o avanço de categorias como entregadores e trabalhadores por aplicativo. “Ninguém vai querer entrar em rota de colisão com direitos dos trabalhadores em ano eleitoral”, afirma.
Além dos atos na Avenida Paulista e na Praça Roosevelt, outras manifestações também estão previstas. A Força Sindical e o Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo e Mogi das Cruzes organizam um ato no bairro da Liberdade, na capital paulista, com presenças confirmadas do ex-ministro da Fazenda Fernando Haddad (PT-SP), da ex-ministra do Planejamento Simone Tebet (PSB-SP) e de Marina Silva.
A Central Única dos Trabalhadores (CUT) também realizará atos em cidades da região metropolitana, como São Bernardo do Campo, Osasco e Campinas.