Os promotores do grupo de Atuação especial e Repressão ao crime Organizado (Gaeco) apresentaram nesta segunda-feira, 27, a primeira denúncia contra 23 policiais, advogados e empresários, investigados nas Operações Bazaar e Recidere, acusados de terem mantido, no âmbito da Polícia Civil de São Paulo, uma associação criminosa para a prática “de atos de corrupção ativa e fraude processual, durante ao menos quatro anos, visando a garantir a impunidade e a continuidade das práticas delitivas do grupo, que, por seu turno, resultaram na lavagem de capitais de quantias bilionárias (R$ 4 bilhões)”.
A Secretaria da Segurança Pública informou que a “Corregedoria da Polícia Civil acompanha e colabora com as investigações do Ministério Público”. “A Polícia Civil reafirma que não compactua com desvios de conduta por parte de seus integrantes. Todas as medidas legais e disciplinares cabíveis serão adotadas caso sejam confirmadas quaisquer irregularidades.”

O grupo teria agido de 2020 a 2025 pagando, ao todo, propinas de R$ 33 milhões a policiais para evitar investigações sobre lavagem de dinheiro e ocultação de patrimônio. No 16.º Distrito Policial, por exemplo, os acusados teriam pagado propinas que iam de R$ 700 mil a R$ 5 milhões. Na Divisão de Crimes Cibernéticos, do Departamento Estadual de Investigações Criminais (Deic), a propina teria sido R$ 300 mil.
Na 3.ª Delegacia de crimes Contra a Fazenda Pública e na 1.ª Delegacia de Crimes contra a Administração, Combate à Corrupção e Lavagem de Bens e Valores, ambas do Departamento de Polícia de Proteção à Cidadania (DPPC), as propinas teriam atingido mais de R$ 200 mil. Todos os casos foram alvo da Operação Baazar, deflagrada pela Polícia Federal (PF) em 5 de março de 2026.
Na ocasião, em colaboração com a Corregedoria da Polícia Civil, os federais cumpriram 25 mandados de busca e apreensão e 11 de prisão preventiva. De acordo com os promotores, os acusados “transformavam as investigações criminais, muitas delas de natureza ‘preliminar’ ou informais, fora, portanto, do âmbito de controle do inquérito policial, em verdadeiros ‘balcões de negócios’, valendo-se, ainda, em diversas oportunidades, da má utilização de instrumentos de investigação como os Relatórios de Inteligência Financeira (RIF) do COAF (Conselho de Controle de Atividades Financeiras)“.
De acordo com o Gaeco, as ações dos policiais “provocaram alteração, inclusive, da jurisprudência atinente ao tema, conforme se verifica no RE (Recurso Extraordinário) 1537165 com repercussão geral (Tema 1404), de 27 de março de 2026, cuja fundamentação pautou-se nos fatos apurados na presente investigação”.
Além dos 23 denunciados, em relação a um 24.º acusado, um advogado, os promotores concluíram um acordo de não persecução penal pois entenderam que o ato criminoso que ele teria praticado seria isolado e não estava no âmbito da associação criminosa. Em relação a oito acusados, os promotores afirmaram que, ao menos desde 2020, eles teriam, de forma sistemática, usado “a corrupção policial o método de garantir a impunidade e a continuidade das práticas delitivas do grupo que resultaram na lavagem de capitais de quantias bilionárias para os mais diversos setores criminosos”.
Ao todo, dos 23 acusados, nove são policiais civis que atuavam no Deic, no DPPC e no 35.º Distrito Policial (Jabaquara). De acordo com os promotores, “observa-se elevada gravidade concreta de suas condutas, que subverteram a confiança depositada pela sociedade e a lealdade aos seus cargos públicos, praticando atos de corrupção que garantiram a impunidade, por anos, de grupo criminoso”.
Os promotores pediram ainda à Justiça a decretação, contra os denunciados, das seguintes medidas cautelares: proibição de ausentar-se da comarca por mais de 8 dias sem comunicação prévia ao juízo; proibição de contato com os demais denunciados e investigados nestes autos e em procedimentos correlatos; entrega de passaporte para apreensão em cartório; recolhimento noturno; monitoramento eletrônico e pagamento de fiança de R$ 50 mil a ser depositada em 5 dias e suspensão da função pública. Os promotores também pediram o bloqueio de R$ 35 milhões de bens de sete acusados.