Diante do corte do financiamento da Casa Branca para pesquisa e ciência e das ofensivas do presidente Donald Trump contra alunos estrangeiros e universidades, pesquisadores têm desistido dos Estados Unidos para estudar.
Entre os motivos, estão o medo de problemas pessoais, como eventuais recusas de visto, ou de cerceamento de suas pesquisas. Procurada pela reportagem, a Embaixada americana no Brasil não comentou.
Neste ano, 96 pesquisadores que receberam bolsa da Capes, agência de fomento vinculada ao Ministério da Educação (MEC), desistiram do doutorado-sanduíche nos Estados Unidos. Esses estudantes já estavam com o aceite para ir a uma universidade americana, mas mudaram o país de destino – prática que não ocorria até o ano passado.

O doutorado-sanduíche é um modelo que permite cursar parte da pós-graduação em uma universidade estrangeira, fazendo uma extensão da pesquisa iniciada no país de origem. Espanha, Canadá, Portugal, Reino Unido, França e Holanda estão entre os principais novos destinos escolhido pelos 96 doutorandos.
A Capes aprovou 2.463 bolsas de doutorado-sanduíche no exterior em 2025, sendo 458 delas (18,5%) em universidades americanas. Todos os pedidos de troca foram de pesquisadores que iam para os Estados Unidos.
O número de desistentes é maior, uma vez que pesquisadores podem obter bolsa para a pós-graduação no exterior por meio de outros mecanismos, como programas estrangeiros ou por outras agências brasileiras de fomento à pesquisa.
Doutoranda em Políticas Científicas e Tecnológicas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Thais Capovilla ganhou bolsa da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).
Com pesquisa sobre a produção científica em inteligência artificial, o Instituto de Tecnologia de Massachussets (MIT), em Boston, liderava sua lista de preferências, uma vez que os Estados Unidos são os principais produtores de trabalhos acadêmicos na área. Mas desistiu.
“A surpresa veio quando o próprio governo começou a atacar suas universidades de ponta, inclusive Harvard, outra grande universidade de Boston”, conta a doutoranda.
“Quando tomei conhecimento de que estudantes, principalmente os estrangeiros, se sentiam inseguros, comecei a me sentir insegura também. Percebi que nos Estados Unidos atualmente não basta mais estar dentro da lei”, relata.
Como Thaís ainda não estava com o doutorado acertado em uma universidade americana, seu orientador na Unicamp sugeriu que ela buscasse alternativas na Europa. Agora, ela estuda ir, no próximo ano, para Inglaterra, Alemanha ou Holanda, onde também há estudos relevantes na área de IA.
“A pesquisa precisa de um grau de liberdade. Que a instituição vai respaldar, seja lá o que acontecer, principalmente se você pesquisa temas delicados”, afirma.
A Fapesp não tem levantamento sobre o número de pesquisadores que desistiram de alguma bolsa nos Estados.
“A oportunidade de fazer doutorado sanduíche fora do País é importante tanto para nossa formação profissional, como para o currículo”, resume Thais.
‘Estava tudo normal até que falei que trabalhava com IA’
Também pesquisador de Inteligência Artificial, Rodrigo Nogueira teve seu visto negado quando planejava uma viagem para dar uma palestra em Harvard, em fevereiro. Ele acredita que foi barrado devido à sua área de atuação, que se tornou campo de disputa global entre as principais potências globais.
“Fiz a entrevista no Consulado em São Paulo. Estava tudo normal até que falei que trabalhava com inteligência artificial. Naquele momento, tudo mudou. Parece que chegou uma nuvem de chuva na conversa”, contou ele ao Estadão na época.
Na entrevista, seu visto foi aprovado, conta Nogueira. No dia seguinte, porém, recebeu uma comunicação do consulado exigindo seu currículo, uma cópia da sua tese de doutorado feita na Universidade de Nova York, todos os seus artigos publicados e o motivo de uma viagem que havia feito para Taiwan.
Ele enviou os documentos, mas recebeu comunicação negando a permissão de entrada e dizendo que não poderia se candidatar a um novo visto pelos próximos doze meses. Com isso, ele não pôde comparecer ao evento para o qual havia sido convidado.
No mês seguinte, Trump entrou em rota de colisão com a Harvard, com ameaças de cortes de verba e veto a alunos estrangeiros. Isso ocorreu após a universidade se negar a cumprir exigências da Casa Branca, que foram vistas pela instituição como ataques à liberdade de expressão e de cátedra.
A emissão de vistos para estudantes nos consulados americanos chegou a ser suspensa e depois foi retomada com novas regras. Agora as autoridades fazem uma varredura do conteúdo nas redes sociais dos requisitantes, a fim de traçar um perfil dos candidatos, que precisam manter seus perfis abertos.

Capes esclareceu regras após insegurança de estudantes
“É natural que algumas pessoas fiquem inseguras e não queiram ir”, afirma a presidente da Capes, Denise de Carvalho. Segundo ela, para evitar estresse na comunidade acadêmica, foi necessário esclarecer que não havia impedimento para que os doutorandos trocassem o país de destino.
“Todos esses estudantes vão em busca de complementar seus estudos, trazer para o país novas tecnologias, realizar experimentos lá com o uso, por exemplo, de equipamentos que ainda não adquirimos no Brasil”, afirma.
“Como há laboratórios excelentes em todos os lugares do mundo, esses doutorandos, com receio de algum tipo de impedimento para o visto ou de impedimento de trabalho, de não conseguirem desenvolver o projeto, decidiram mudar de país”, completa.
Denise também diz ter recebido relatos de pesquisadores nos EUA que foram informados que não poderiam prosseguir com seus projetos pré-aprovados e teriam de mudar seus temas de pesquisa, das mais diversas áreas, para poderem seguir com os estudos lá.
Para os EUA, pode haver retrocesso em termos de desenvolvimento. Outros países vão receber esses pesquisadores que não podem trabalhar lá e se fortalecer, com o consequente enfraquecimento da economia americana.
A consequência, na visão da presidente da Capes, é que a ciência americana irá enfraquecer, enquanto as pesquisas em outros países tendem a ganhar força.
A Fundação Lemann, que concede cerca de 60 bolsas de mestrado e doutorado por ano para brasileiros (a grande maioria delas para os Estados Unidos), também relata insegurança entre os estudantes que auxilia.
Ter universidades que atraem gente do mundo inteiro é uma das principais razões que levaram os EUA a se tornarem a potência que são hoje
Denis Mizne, CEO da Fundação Leman
Segundo Denis Mizne, CEO da Fundação Leman, a troca de conhecimentos oferece vantagens para ambos os países. “Por um lado, o Brasil se beneficia ao ter cidadãos com acesso a excelentes professores, à pesquisa de ponta e à conexão com o que há de mais avançado no meio acadêmico”, destaca.
“Por outro, a presença de brasileiros nessas instituições também beneficia as próprias universidades (americanas), que têm como um de seus grandes ativos a capacidade de atrair pessoas altamente dedicadas e inteligentes do mundo inteiro”.