Mais curtos e focados: por que procura por cursos superiores de tecnologia tem crescido

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O avanço dos cursos superiores de tecnologia, os chamados tecnólogos, tem ganhado força no Brasil, em um movimento que acompanha mudanças no mercado de trabalho e na forma de encarar a formação universitária. Em São Paulo, essa tendência aparece na maior procura pelas Faculdades de Tecnologia do Estado de São Paulo (Fatecs), uma das principais redes públicas nesse tipo de graduação.

De acordo com o coordenador do vestibular das unidades, André Braun, a demanda tem crescido nos últimos anos, impulsionada pela percepção de que esses cursos oferecem inserção mais rápida no mercado. “As pessoas começam a entender melhor o papel do curso superior de tecnologia”, afirma ele. “São formações pensadas para atender diretamente às demandas do setor produtivo.”

Na prática, o apelo dos tecnólogos está no formato. Com duração mais curta e formação direcionada, esses cursos contrastam com os bacharelados tradicionais, mais longos e generalistas. Essa característica, diz ele, tem levado a uma mudança na forma como a formação é percebida. “Temos usado o termo ‘trabalhabilidade’, porque muitos alunos não apenas se empregam rapidamente, mas também empreendem.”

Feira do Centro Paula Souza em SP, que reúne projetos de escolas técnicas; matrículas em tecnólogos passaram de cerca de 996 mil em 2017 para mais de 2 milhões em 2025.
Feira do Centro Paula Souza em SP, que reúne projetos de escolas técnicas; matrículas em tecnólogos passaram de cerca de 996 mil em 2017 para mais de 2 milhões em 2025.

O movimento, no entanto, não se explica apenas pela demanda dos estudantes. Para Luiz Roberto Liza Curi, pesquisador associado da Fundação Getúlio Vargas (FGV), o crescimento dos tecnólogos está inserido em uma transformação mais ampla do ensino superior brasileiro. “Os cursos superiores de tecnologia foram uma das mais relevantes inovações na diversificação do sistema, organizados com foco na empregabilidade e nas demandas de setores como a indústria.”

Segundo ele, a expansão das matrículas, que passaram de cerca de 996 mil em 2017 para mais de 2 milhões em 2025, acompanha o crescimento geral do ensino superior, marcado sobretudo pela ampliação da oferta em instituições privadas e na modalidade a distância. “Não se trata apenas de uma demanda espontânea, mas também de uma oferta muito ampla e de facilidades de acesso ao diploma”, diz.

Esse contexto ajuda a explicar por que o crescimento dos tecnólogos ocorre em paralelo à expansão do ensino superior como um todo e reforça o papel da estrutura de oferta nesse processo. Ao mesmo tempo, o potencial dessas formações, segundo Curi, depende diretamente da qualidade e da articulação com o mercado de trabalho. “Cursos superiores tecnológicos representam uma grande força formadora para o desenvolvimento econômico e a produtividade, mas a inserção no mercado depende da qualidade curricular e da aproximação com os ambientes profissionais”, afirma.

Crescimento de cursos

Essa lógica aparece na distribuição da demanda. Nas Fatecs, cursos ligados à tecnologia da informação concentram a maior procura, como Análise e Desenvolvimento de Sistemas. “Há uma necessidade clara do mercado por profissionais de TI, e muitos alunos conseguem emprego durante o curso”, afirma Braun.

Além da área de tecnologia, cursos de gestão empresarial aparecem entre os mais buscados, acompanhando a demanda por profissionais voltados à administração e aos negócios. “Antes havia uma predominância maior de cursos industriais, mas hoje vemos uma diversificação, com destaque para TI e gestão”, diz ele.

Dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) mostram que algumas formações concentram os maiores salários dentro da categoria de tecnólogos, especialmente em áreas ligadas à indústria e à tecnologia da informação, o que reforça a atratividade desses cursos. Apesar do avanço, a consolidação dos tecnólogos ainda enfrenta desafios de percepção.

Segundo Braun, houve por muito tempo uma confusão entre esse tipo de graduação e o ensino técnico de nível médio. “Isso vem mudando.” Ele cita como exemplo o reconhecimento crescente em concursos públicos e conselhos profissionais.

Novo perfil

A discussão também envolve o perfil dos estudantes. Embora frequentemente associados à geração Z, os cursos tecnológicos atraem públicos diversos. “Muitos estudantes, inclusive mais velhos, buscam o diploma, especialmente na modalidade a distância”, afirma Curi. Nesse cenário, a escolha por programas mais curtos está relacionada tanto às exigências do mercado quanto às condições de acesso.

Ainda assim, o tempo reduzido não é garantia de inserção profissional. “O menor tempo é um fator competitivo, mas não é suficiente por si só. A qualidade do curso e a formação por competências são determinantes”, diz Curi. “Empregos não dependem apenas de diplomas, mas do desenvolvimento de habilidades.”

Mas nem tudo se limita ao setor público. Segundo Curi, a expansão dessas formações está diretamente ligada ao crescimento da oferta, especialmente em instituições privadas e na modalidade a distância. Os tecnólogos passaram a ocupar um espaço relevante dentro desse movimento, impulsionados tanto pelo formato mais curto quanto pela possibilidade de acesso mais rápido ao diploma. Ao mesmo tempo, o pesquisador ressalta que esse crescimento não é homogêneo. “É da maior relevância considerar processos de expansão qualificada, que associem a formação à geração de competências e à adequada inserção no emprego.”

Nesse sentido, a efetividade desses cursos varia conforme a estrutura e o modelo adotado. Curi destaca que formações mais bem articuladas com o setor produtivo tendem a apresentar melhores resultados, especialmente quando aproximam estudantes de situações reais de trabalho ao longo do curso. O tema também se insere no contexto amplo de mudanças demográficas. “Com o envelhecimento da população e a redução da força de trabalho, será necessário formar mais e melhor, com rapidez e forte articulação com o emprego.”

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