Entre as questões mais difíceis do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) do ano passado estão uma sobre o fim da monarquia do Brasil e outra sobre a estrutura química do remédio nimesulida. E as mais fáceis falam de cobras-corais, campanha do agasalho e estereótipos da cultura brasileira.
O Ministério da Educação (MEC) passou a divulgar o nível de dificuldade de cada pergunta, algo que ajuda a desvendar um pouco do mistério do exame, que segue uma metodologia específica. Os dados foram tabulados com exclusividade para o Estadão pela Arco Educação a partir dos microdados do Enem, divulgados este mês. A prova é hoje o maior vestibular para o ensino superior público e privado no Brasil.
A classificação de dificuldade é feita a partir de pré-testes – quando as questões são aplicadas antes pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), órgão ligado ao MEC, de forma sigilosa a um grupo de alunos justamente para testá-las. Depois, o exame é montado com uma proporção de questões consideradas fáceis, médias e difíceis.
Apesar de seguir um certo padrão, no entanto, o nível pré-estabelecido nem sempre representa exatamente o resultado que ocorre quando os candidatos se deparam com a questão – principalmente porque não é possível prever quantas pessoas vão chutar e acertar.
Faça o teste com os itens mais difíceis e mais fáceis da prova de 2024
A pergunta com menos acertos da prova toda de 2024 – só 8% dos alunos responderam corretamente – era considerada apenas a 8ª mais difícil da área de Ciências da Natureza e falava sobre clonagem genética.

Já aquela questão que o Inep havia registrado como a mais difícil da área, a da química da nimesulida, foi acertada por 36,3% dos alunos.
O mesmo ocorre em Matemática. A questão que mais gente errou – 87,5% dos alunos – foi uma que pedia para se calcular a área do vão aberto da galeria do Museu Whitney de Arte Americana, em Nova York.
Já 75,9% deram a resposta errada na pergunta que era considerada mais difícil previamente – ela pede o cálculo da medida de um piso a partir de algumas variáveis.
A classificação de níveis de dificuldade é crucial para a nota que o aluno vai receber na prova. E também ajuda a fortalecer a ideia de que o Enem é um teste antichute.
Para o cálculo da nota, não importa apenas a quantidade de acertos, como em um vestibular convencional, como o da Fuvest. O que vale é a coerência do resultado de cada estudante.
“Isso faz com que dois alunos que acertem 44 questões tenham notas diferentes no Enem. Depende de qual ele errou dentro um perfil coerente”, diz o coordenador geral de Medidas da Educação Básica do Inep, Eduardo Sousa.
Isso quer dizer que a Teoria de Resposta ao Item (TRI), metodologia usada na prova e em avaliações modernas no mundo todo, considera estranho se um estudante acerta questões já previamente estabelecidas como difíceis e erra as registradas como fáceis. Dessa forma, seu acerto ocasional não valerá tantos pontos quanto os daquele aluno que foi bem nas perguntas fáceis e medianas.
O diretor de Ensino e Inovações da Arco Educação, Ademar Celedônio, faz uma comparação com uma pessoa que consegue pular um muro. “Se alguém pula um muro de 5 metros, é óbvio que ele também consegue pular um de 1 metro. Mas se ele não consegue pular o de 1 metro, e só pula o de 5, o que pensamos? Que foi acaso, sorte, ou que ele não tem consistência”, explica. “E é exatamente isso que a TRI faz: ela não premia o chute e valoriza a coerência pedagógica.”
Ele explica também que as questões mais difíceis são colocadas na prova para que o Enem possa conseguir discriminar alunos de alto desempenho e que concorrem a vagas muito concorridas, como as de Medicina, porque eles acertam a maioria do restante.
Desde 2009, quando o Enem virou um vestibular, o Inep tem construído uma tecnologia que não existia no País para a montagem da prova seguindo a TRI, trabalho que inclui os técnicos do órgão e também professores consultores.
Nem todas as questões conseguem ser pré-testadas, mas também entram na escala de dificuldade a partir da experiência que o grupo já estabeleceu ao longo dos anos. “Montar o teste não é uma equação simples. Há a preocupação estatística e a pedagógica, tem os temas que precisam ser trabalhados e a matriz de referência do Enem (com habilidades que precisam ser cobradas na prova)”, diz a diretora da Avaliação da Educação Básica do Inep, Hilda Linhares da Silva.