
Por Fermín Damirdjian – orientador educacional do Ensino Médio na Escola da Vila
A série Adolescência, que ganhou notoriedade em ambientes acadêmicos, domésticos, escolares e profissionais, parece ter tocado a fundo todos os adultos que se deparam com a tarefa de educar, seja em sala de aula, seja em coordenação de escola, seja no carro ou na cozinha. Apenas ter em mãos a responsabilidade de formar um jovem saudável no mundo atual parece ter sido requisito para sensibilizar-se com a obra. No entanto, é de se espantar que uma série sem um fio narrativo convencional e sem um protagonista especialmente carismático tenha permitido tamanha adesão. Como se isso não bastasse, a série não é didática nem apresenta soluções, nem mesmo como retórica cinematográfica. O que extrair dela, então?
A produção da Netflix parece ter conseguido uma troca legítima entre nossos anseios e aquilo que se traduz num palco, numa música ou na tela da nossa TV. Os recursos cinematográficos parecem ter sido empregados de modo ajustado à miríade de questões que nos assolam em nosso dia a dia como educadores. Por momentos, apenas parecem nos atormentar com uma série de dúvidas. Devo tirar o celular do meu filho? Por quanto tempo? Em que momentos? Estou comprando uma briga inútil? Podemos, nós também, dar-nos o luxo de experimentar essa droga? É mesmo tão ruim como dizem?
O enredo mostra aos adultos o quão distante estamos do universo da adolescência em tempos de redes sociais. No terceiro episódio, a psicóloga parece ser o adulto que por fim se esforça em se aproximar do garoto. Ela consegue alguma coisa. Porém, mesmo as conversas com a psicóloga chegam a seu fim. E ele enlouquece. Há algo ali que ele parece, de fato, perder: uma relação. Seria, quem sabe, essa oportunidade de ser visto de perto por alguém que se debruçou sobre ele, que tentou entendê-lo.
A cena em que ele é separado dela por um guarda é dramática. Em uma comparação ingênua, mas ainda cinematográfica, era o Elliot sendo separado de E.T. pelos cientistas em suas roupas de plástico. Mas ali, um grupo de amigos, em suas bicicletas, resgatariam o protagonista e venceriam as agruras do mundo voando com suas bicicletas por cima das viaturas, da cidade, da floresta. É ingênuo, mas é para isso que serve a infância. Para abrigar e para se iludir. Em grupo.
Mas nada é de graça. É preciso certo sacrifício para estar em um grupo. Há uma negociação inevitável em qualquer agrupamento humano. Para ser resgatado pela patota das bicicletas, é preciso oferecer alguma coisa. E é isso que parece não estar tão claro nas redes sociais ofertadas na internet.
Jamie não encontrava necessariamente esses códigos sociais quando estava em seu quarto, frequentando grupos na internet. Trata-se aqui de outras redes sociais, de um mundo assíncrono, bem diferente do mundo de Elliot. Jamie é parte de um mundo em que seu nome não necessariamente aparece em primeiro lugar. E nem mesmo sua cara, sua voz, sua persona está tão exposta como estava a de Elliot. Isso, por si só, elimina um importante sedimento sobre o qual alguém pode erigir a responsabilidade. Na internet, podemos linchar um sujeito que, na escola, tratamos como amigo. Podemos experimentar e fomentar nosso ódio. E por que o ódio? Ora, porque é uma oportunidade.
A contenção do grupo familiar, do time de futebol, da banda, da turma do teatro, dos colegas de sala, de qualquer agrupamento que tem um projeto em comum, ou algum laço de convivência, mesmo que compulsória, serve como exoesqueleto para a formação de um sujeito. Elliot deveria ter um pouco mais disso, em comparação a Jamie.
Mas, e a família? No último episódio, quando passamos uma tarde inteira com ela, já tinham se passado meses após a tragédia. Jamie avisa, por telefone, que vai admitir o crime que cometeu. Ninguém se espanta tanto. Era, na verdade, de se espantar o fato de Jamie não ter assumido antes. Parecia negá-lo, com a mesma leviandade e falta de responsabilidade com a qual ele teria atacado aquela menina. Não há palavra. Ora, ninguém nasce falando. A palavra é parte fundamental da estrutura ofertada pelo tecido social para a construção da moralidade. Não vem de fábrica, como o fígado ou a tireoide.
“O que fizemos de errado?”, o pai pergunta para sua esposa. Adolescência não responde nada aos desamparados espectadores. Parece uma descrição fria do inferno – e o sentimento de impotência é o inferno universal dos educadores. Talvez por isso, inclusive, a série não tenha surtido muito efeito nos jovens e adolescentes. Para eles, ela não faz lá muito sentido. Não há ali uma fábula que se preste para interpretarmos o mundo. Menos ainda para quem não veste os sapatos de genitor e educador.
Já os adultos que se propõem a educar, iludem-se com sua potência de criadores – e que de fato existe, até um certo ponto, o qual é sem dúvida misterioso e fascinante. Mas, paradoxalmente, não há um plano de obras a ser seguido. Se numa reforma doméstica sempre há imprevistos e atrasos, o que dizer de um ser humano?
E a família de Jamie estava lá, fazendo seu trabalho. Escolheram seu nome, mas não escolheram o idioma. Escolheram não serem violentos, mas escolheram definir limites. O que falhou? É inútil especular, aqui, sobre isso. Mas tem uma coisa que não falhou: o anonimato e a falta de contorno da internet.
Fermín Damirdjian é formado em psicologia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e trabalha com adolescentes e atendimento de famílias desde 1999. Atualmente é orientador educacional do Ensino Médio na Escola da Vila.