Quem atravessa o Largo São Francisco, diante da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP), no centro de São Paulo, vê do outro lado da rua gradis de metal pichados cercando a Praça Ouvidor Pachêco e Silva e um estacionamento descoberto.
O terreno, de mais de mil m², já foi do Jockey Club. Endividado, o clube perdeu a área, que passou por leilão público. A Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano (CDHU) arrematou por R$ 9 milhões, valor abaixo da avaliação judicial, segundo o órgão. Nos últimos anos, o local virou vaga de carro para funcionários da Secretaria Estadual da Segurança Pública. Mas a área deve mudar de dono em breve — e também de uso.
O plano da tradicional faculdade da USP é que os veículos deem lugar a um fórum, onde os alunos poderão pôr em prática o que aprendem em sala. O projeto inclui criar varas da Justiça Estadual, Federal e do Trabalho, além de cartórios de notas e de registro de imóveis. Também haverá salas para o Ministério Público, a Defensoria e a OAB.
A ideia ainda não tem data para sair do papel, mas a faculdade espera receber o terreno nas próximas semanas, em uma troca costurada com o governo estadual. Ao Estadão, os Tribunais de Justiça do Estado, o Regional do Trabalho e a seccional paulista da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) informaram que ainda não foram procuradas pela USP.
Em contrapartida ao novo terreno, a universidade cederá um dos seus imóveis: o Edifício Andrade, no número 170 da Rua Benjamin Constant, a cerca de 150 metros do estacionamento.
O prédio, invadido há anos por um grupo do Movimento Social de Luta por Moradia, deve ser reformado pela CDHU para virar habitação popular. O Estadão questionou a entidade sobre o plano, mas não obteve retorno.
A CDHU chegou a contratar um estudo preliminar sobre como o terreno que será transferido à faculdade pode ser aproveitado. O modelo mostra um edifício de cinco pavimentos, com dois andares subterrâneos e pilotis no térreo.





“Significa muito mais do que manter um mero estacionamento. É uma forma diferenciada de ocupar o centro e trazer outra vida ao local”, afirmou ao Estadão Ana Elisa Bechara, vice-diretora da Faculdade de Direito da USP. Em fevereiro, ela assumirá o comando no lugar de Celso Campilongo.
A ideia é levar adiante o projeto do atual dirigente. “Será uma infraestrutura toda renovada, em que nossos alunos poderão praticar o direito concretamente, levando contribuição social à população que será atendida no espaço”, acrescenta ela, que fica no cargo até 2030.

Expansão das arcadas
Com o terreno recém-negociado e a incorporação, em 2024, do Palácio do Comércio — edifício vizinho ao prédio histórico das arcadas —, a vice-diretora enxerga a região “quase como um câmpus da USP no Largo São Francisco”. Segundo Ana Elisa, a faculdade “praticamente dobrou de tamanho nos últimos anos”.
Entre os planos de expansão, começa a tomar forma um projeto de revitalização do Largo São Francisco. A ideia, informa ela, é criar um boulevard entre os prédios da instituição, unindo o edifício histórico ao Palácio do Comércio — hoje separados por uma via de tráfego de automóveis.
A calçada seria ampliada em quase mil m², diz ela, diminuindo as faixas de trânsito. “Passaríamos a priorizar os pedestres. O centro de São Paulo é bonito e tem potencial turístico importante. Isso precisa ser valorizado”. A proposta inclui revitalizar o parlatório do Largo São Francisco e reinstalar uma fonte de água. O estudo preliminar já foi apresentado à Prefeitura.

O projeto faz parte das comemorações dos 200 anos da Faculdade de Direito da USP, que, ao lado de Olinda, foi o primeiro curso jurídico do Brasil, em 1827. Outra entrega do bicentenário será a nova biblioteca da instituição, na Rua Riachuelo.
Em obras desde o ano passado, o prédio de 14 andares e quase três mil m² deve ser inaugurado em maio de 2026. A fachada do prédio será inspirada em edifícios neoclássicos franceses.

A instituição abriga a mais antiga biblioteca pública de São Paulo, que contém o maior acervo de livros jurídicos do Brasil. “Temos, por exemplo, cartas imperiais, obras que não existem nem na Europa. Há pesquisadores estrangeiros que vêm aqui em busca dessas obras”, aponta a vice-diretora.
As celebrações dos dois séculos da SanFran ainda preveem criar um museu do ensino jurídico no Prédio da Baronesa, na Avenida Brigadeiro Luís Antônio, próximo às sedes do Ministério Público de São Paulo e da OAB.
O edifício é ocupado hoje por setores administrativos da faculdade. “É um imóvel bonito, tombado. Essa destinação cultural é importante, a busca de valorizar o centro. A própria faculdade recebe diariamente muitos turistas, do Brasil todo e até estrangeiros”, comenta Ana Elisa.